01.12.08

Num ambiente que se revelou bastante aconchegante e afável em entrevista com Coronel Soares de Moura, é revelado um outro lado da participação na Guerra do Ultramar, as vivências, experiências e as convicções.

 


 

Augusto Soares de Moura é um coronel reformado das Forças Armadas.  Decidiu agarrar a carreira de militar porque a sua família materna estava toda ligada às forças armadas. As condecorações, a espada do avô fascinavam-no.

Antes de ir para o ultramar esteve no Estado Maior da Força Aérea, na avenida da liberdade em Lisboa. Não gostava nada de estar em Lisboa, estava longe da família e quase não havia serviço, o que havia acabava cedo e era apenas papel. O que ele realmente gostava era o trabalho de campo, “gosto de todos mas talvez preferisse mais a parte activa, de comandar aviões”. Foi dos primeiros a voluntariar-se para a guerra, “ se não fui o primeiro, devo ter sido dos primeiros. Há uma coisa que é certa, eu fui no primeiro avião que levou gente para ficar definitivamente em Angola”. Voluntariou-se para a guerra porque segundo o mesmo, “o exército é feito para a guerra”, esta estava a começar e ele entendeu que deveria ir. Nunca se arrependeu de se ter voluntariado até porque aos 43 anos já era Coronel e já podia regressar a sua casa.

Antes de ir para o Ultramar esteve na guerra do Algodão em Malange, onde permaneceu 3 semanas. A guerra do Algodão foi no final de Janeiro, início de Fevereiro e em Março rebentou a guerra colonial.

Esteve no Ultramar quatro anos. Admite que as hierarquias eram privilegiadas pois não ganhavam a mesma coisa e a alimentação era diferente. Os soldados andavam vestidos de uma maneira, os sargentos e os oficias de outra, o tecido das fardas era diferente. “A alimentação também era diferente, havia o chamado rancho, os soldados comiam do rancho. Os sargentos já comiam no que se chamava, messe sargento e os oficiais comiam na messe dos oficiais.”

A verdadeira guerra estourou à sua volta, a 5 km da cidade de Carmona. Pegaram desde logo nos aviões para ver o que se passava, lembra-se de ter visto uma enorme fila de carros numa bomba de gasolina. As pessoas tentavam fugir, havia já muitos mortos e os feridos começavam a chegar. “São imagens que não esquecemos”.

Não teve acompanhamento depois da guerra, diz que nunca sentiu necessidade e que fez a sua vida, fez o que pôde. Foi para lá como Major veio como Coronel, não podia querer mais nada.  

O episódio que mais o marcou foi dois dias depois da grande matança. “As pessoas andavam todas a fugir, especialmente as mulheres e havia uns aviões que vinham de Luanda lá à base. Bom, mas os aviões aterravam e levavam aí às 40/50 pessoas para Luanda mas elas chegaram às centenas e então a única solução era a fila. As filas às vezes estavam ali uma hora, duas ou três ou quatro, era quando o avião ia a Luanda descarregava, vinha e as pessoas estavam ali horas e então houve outro apoio. Começamos a ter pena e começamos a fazer umas sopas, ou às vezes um bocado de leite porque havia mães que traziam bebés e a cruz vermelha procurou ajudar. Eu andava por ali, nessa altura não estava a voar e dávamos um pão, sopa e as pessoas claro agarravam e há uma senhora então já vestida de preto, não sei o que significava, lembro-me que estava de preto, era uma senhora relativamente idosa e não quis e disse-lhe “A senhora não quer nada? Olhe que é capaz de estar aqui muito tempo” e ela chorava, chorava e não abria a boca, nem abriu a boca. Os pretos agarraram-na e ela esteve com os pretos toda a noite, só de manhã é que foi libertada e pronto… Coitada da senhora, disse que estava… pronto, foi isto! Nos somos homens e tal, mas os homens também tem coração. E essas coisas são muito bonitas de contar e ouvir mas estar lá. Ela tinha olheiras até cá baixo, chorava, chorava, não queria comer não queria nada!”

Regressou antes da guerra acabar porque todos os lugares de Coronel estavam ocupados e disseram-lhe que regressasse à metrópole, mais ainda ficava mais tempo. Depois de três anos na metrópole disseram-lhe que tinha que ir para o Curso de General e ele disse “não morro sem estar em minha casa” então saiu da Força Aérea. “Fiz a minha parte, acho que bem-feita e chegou.”

 


Carla Garcia 2T4

publicado por Burguesinhas às 20:23

mais sobre mim
Dezembro 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
12

14
15
16
17
18
19

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


arquivos
2009:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2008:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


pesquisar
 
blogs SAPO