20.12.08

Procrastinação efectiva


Somos “cadáveres adiados que procriam”, como diria o poeta Fernando Pessoa. Procriamos sonhos e desejos, vontades e ambições, queremos mais e não nos contentamos com pouco. Mas nem sempre conseguimos realizar tudo a que nos propusemos. As desilusões chegam e a angústia fica mais perto. Mas, para que a vida não seja um fardo de derrotas e fracassos, encontramos sempre algo que entretenha o presente, e que adie a verdade nua e crua. E incontornável…


O placebo é um medicamento inócuo, sem nenhum valor terapêutico, mas que acaba por ter o mesmo efeito pois a pessoa que o toma acredita que este é o verdadeiro. Vazio e oco, esta “pílula de açúcar”, apenas funciona porque a mente é mais forte. Porque a vontade é mais forte. A verdade é que tomamos “placebos”, instinta e conscientemente, todos os dias, e de variadas formas. Quando olhamos as montras das lojas, mesmo sabendo que não poderemos comprar nada do que está lá dentro. Quando compramos coisas que não necessitamos, mas apenas porque as queremos ter. Quando se bebe demais, como se isso fosse acabar com os problemas precedentes. Quando se usa as cintas modeladoras de corpo, só para o espelho nos dizer que estamos um pouco mais magros. Quando nos iludimos com as horas e horas de publicidade que vemos ao longo da nossa vida. Quando vemos um filme com final feliz. Quando ouvimos música no carro, à espera que o trânsito acabe no acorde seguinte. Quando vasculhamos a Internet, em busca de algo que não encontramos na vida fora do ecrã. Quando começamos a ler o jornal nas últimas páginas, porque as principais notícias, mais recentes e reais, não estão lá. Quando pensamos demasiado, protelando a decisão que pede uma resolução. Quando se desaperta um pouco o nó da gravata. Quando se inicia um novo romance, para tentar esquecer outro. Quando dormimos apenas para adormecer o pesadelo. Quando jogamos “Sims”, para viver uma outra vida, diferente da nossa, a que gostávamos de viver, nem que seja virtualmente.


Estes “placebos” fazem-nos adiar o inadiável, a verdade que chega passo a passo, quase a alcançar-nos. Tentamos esconder o futuro, embelezando o presente e hipervalorizando o passado. Para que a vida não doa tanto. Vivemos não na verdade, mas na paraverdade. Mostramos só o que queremos mostrar, o melhor de nós, mesmo que este ainda não exista. Porque, afinal, histórias felizes são apenas histórias que não terminaram ainda, procuramos sempre alongar a melhor cena do nosso filme, colori-lo e dar-lhe muitos efeitos especiais. Para que pareça mais bonito, mesmo que não seja real…


Tatiana Henriques 
 

publicado por Burguesinhas às 18:05

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